
Paz e Terra (Grupo Editorial Record) • Publicado 2012
A invenção das tradições
Sinopse
Não há contradição necessária entre a origem recente de uma prática e a autoridade conferida por sua aparência ancestral. A invenção das tradições, volume coletivo organizado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger, parte dessa provocação para investigar como algumas sociedades transformam acontecimentos relativamente recentes em símbolos de continuidade histórica. Seu objetivo não é demonstrar que todo costume seja falso nem reduzir a experiência cultural à manipulação consciente. Trata-se de identificar o trabalho político e social por meio do qual cerimônias, vestimentas, rituais e narrativas de origem adquirem a força normativa de uma tradição.
Hobsbawm distingue as tradições inventadas dos costumes que se modificam na prática cotidiana. As primeiras operam por meio de regras, repetições e referências ao passado, contribuindo para inculcar valores ou legitimar relações sociais. Essa distinção permite compreender por que períodos de transformação acelerada, longe de dispensarem o passado, multiplicam as tentativas de codificá-lo. Onde instituições e vínculos mudam, pode crescer a necessidade de representar uma continuidade que torne a novidade tolerável, compreensível ou legítima.
Os estudos reunidos no livro percorrem cenários diversos: os emblemas culturais das Highlands escocesas, a recuperação romântica do passado galês, a elaboração do cerimonial da monarquia britânica, as representações imperiais na Índia, a construção colonial de tradições africanas e a produção em massa de rituais e identidades na Europa do final do século XIX. A comparação revela que as tradições não pertencem exclusivamente às elites conservadoras: também podem ser fabricadas, disputadas e ressignificadas por movimentos que questionam a ordem estabelecida.
A contribuição decisiva da obra está em tornar visível a relação entre memória e poder. Uma tradição não apenas remete ao que aconteceu; ela também organiza uma interpretação de quem somos, de que autoridade reconhecemos e de quais obrigações herdamos. O historiador, portanto, não pode contentar-se em narrar a origem declarada dos símbolos. Precisa reconstruir sua cronologia efetiva, seus promotores, seus usos e as condições de sua aceitação.
Publicado em 1983, o volume transformou o debate sobre identidades nacionais, colonialismo e legitimação cultural. Sua leitura preserva uma advertência metodológica essencial: descobrir que uma tradição foi inventada não equivale a negar que possa ser vivida autenticamente. Justamente porque as sociedades incorporam essas criações à própria experiência, importa compreender como se tornam duradouras.
Dados do livro
- Autor
- Eric Hobsbawm, Terence Ranger
- ISBN
- 9788577532094
- Ano
- 2012
- Editora
- Paz e Terra (Grupo Editorial Record)
- País de publicação
- Brasil
- Tradução
- Celina Cardim Cavalcante
- Format
- Libro impreso; 392 páginas
- Edition
- Edición brasileña